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François Jullien

Tao — François Jullien

Filósofo francês, professor da Universidade de Paris VII, reconhecido como um dos mais respeitados sinólogos contemporâneos, com várias obras publicadas, sendo algumas já traduzidas para o português, como: "Figuras da Imanência" (Para uma leitura filosófica do I Ching) e "Um Sábio Não Tem Ideia"

MARTIN, Nicolas; SPIRE, Antoine; JULLIEN, François. Chine, la dissidence de François Jullien suivi de Dialogues avec François Jullien. Paris: Éditions du Seuil, 2011.

François Jullien: Trajetória, Formação e o Diálogo com a China e o Pensamento Europeu

  • Reconstituição da Trajetória de François Jullien em Posições Sucessivas:

    • Tentativa de reconstituir a trajetória como uma série de posições sucessivas impossíveis de apreender fora de uma conjuntura concreta e datada.
    • Dificuldade de executar este trabalho sem nele misturar o julgamento de hoje.
    • Necessidade de não fazer a omissão das escolhas livres de um indivíduo, postas ao longo de sua vida, das quais se pode fazer o inventário.
    • Propósito de evocar alguns pontos fortes da biografia de François Jullien, indispensáveis para compreender a evolução de seu trabalho.
    • Consciência de depender de um saber lacunar.
    • A obra Pensar desde um Fora (a China), de Thierry Marchaisse, como principal fonte, ao constranger François Jullien a entregar alguns elementos.
  • Anos de Formação na École Normale Supérieure e as Influências Gregas:

    • Período decisivo das anos de formação à École normale supérieure, rue d'Ulm, como para a maioria dos intelectuais franceses.
    • François Jullien é então épris de literatura grega.
    • Oportunidade de seguir os cursos de Jean Bollack e de Jean-Pierre Vernant.
    • Jean Bollack e a perspectiva filológica:
      • Fazer parte de uma constelação de nomes frequentemente evocada para pintar o contexto de sua formação.
      • A citação de François Jullien sobre a influência de Jean Bollack: "Tendo aprendido a encontrar e a defender a letra contra a alegação."
      • Falar do interior dos textos da cultura grega.
      • Manter-se em todas as circunstâncias neste patrimônio.
      • Fazer a parte da História e da sociedade nas diferentes interpretações de um texto, para se liberar das garras destas determinações socio-históricas.
      • A citação de Jean Bollack sobre o crítico filólogo: "O crítico filólogo tem por matéria, de um lado, o texto ou a virtualidade de um sentido e, do outro, a totalidade de suas utilizações, isto é, a história, a cultura do intérprete, da qual é preciso bem saber se não se fala em seu nome quando se quer falar em nome do texto."
    • Jean-Pierre Vernant e a perspectiva conceitual:
      • Tentar fazer amadurecer conceitos que via tecerem a pensamento e os mitos gregos.
      • O apego a desprender-se "das condições de possibilidade da pensamento", segundo o próprio François Jullien.
      • A abordagem da Grécia a partir de sua formação filosófica e de seu engajamento político.
    • A influência mútua e a marca no trabalho de François Jullien:
      • Convite de Jean-Pierre Vernant para passar do social ao conceito para aprofundar os fundamentos da cultura grega.
      • Impulso de Jean Bollack para interrogar o texto enquanto tal, dobrando-o sobre sua coerência interna.
      • O exemplo do Poema de Parmenides:
        • Jean-Pierre Vernant o relata ao contexto antropológico, notadamente ao xamanismo das civilizações de Ásia do Norte.
        • Jean Bollack se esforça para o reler a novo, explorando suas virtualidades próprias e "tendo" o sentido.

O Desvio Fundamental para a China: Língua, Ontologia e o Conceito de Identidade

  • O Estímulo de Georges Dumézil e Émile Benveniste e a Busca do Distanciamento (Desvio/Intervalo):

    • Georges Dumézil e Émile Benveniste, filólogos e linguistas, confortaram esta inclinação em François Jullien.
    • Diferença na abordagem: estes dois autores privilegiam o campo indo-europeu, buscando filiações semânticas e ideológicas.
    • A pressente necessidade de um "distanciamento" mais fundamental em François Jullien para dar conta dos pressupostos da pensamento grega e europeia.
    • A China como local da maior exterioridade:
      • Exterioridade geográfica.
      • Exterioridade histórica, pelo desenvolvimento quase independente do império do Meio da História ocidental até o seculo XVI.
      • Exterioridade da língua ao conjunto indo-europeu.
  • A Ausência do Verbo Ser em Chinês Clássico e o Conceito de Identidade:

    • O sublinhado de François Jullien da importância da ausência do verbo "ser" em chinês clássico.
    • Forjamento de uma tradição de pensamento própria.
    • Perda de pertinência do conceito de identidade.
    • A dupla utilização do verbo "ser" no lado ocidental:
      • Citação: "Ora ele é tomado no sentido de existir, ora empregado como simples cópula: o sol é; o sol é um astro luminoso."
    • O lado chinês:
      • O correspondente pode ligar o predicado ao sujeito, mas não exprime a existência.
      • A expressão "Eu sou" não se diz em chinês clássico.
      • A China, desde o encontro com o Ocidente, deve juntar duas palavras - cun ("subsistir") e zai ("estar aí") - para dar conta da noção de "ser" no sentido de "existência".
  • A Crítica à Formulação de Anne Cheng sobre o Predicado:

    • Necessidade de retomar e corrigir o propósito de Anne Cheng: "Ao olhar das línguas indo-europeias, um dos fatos mais chocantes é a ausência, em chinês antigo, do verbo 'ser' como predicado, sendo a identidade, aliás, indicada por uma simples justaposição."
    • O enunciado predicativo não está ausente da pensamento chinesa.
    • O que falta é o "Ser" da ontologia grega ("o sol é").
  • O Debate sobre o Determinismo Linguístico entre Benveniste e Ricœur:

    • Émile Benveniste sublinha a importância do verbo "ser" nas pensamentos ontológicas indo-europeias.
    • O filósofo Paul Ricœur indica ter "sempre exprimido reservas a respeito do que arrasta de determinismo linguístico".
    • O argumento de Paul Ricœur contra o determinismo linguístico aplicado à filosofia grega:
      • Citação: "Aplicou-se isto à filosofia grega: é porque os Gregos teriam tido o verbo ser que eles teriam elaborado ontologias. Ora, com o mesmo verbo ser, eles construíram várias ontologias."
    • A evolução da leitura do trabalho de François Jullien por Paul Ricœur, atestada por seus dois textos.
    • A posição de François Jullien: não é a língua que determina o pensamento, mas sim o pensamento que "explora" a língua, sendo as línguas diversas em recursos.
  • A Substantivação e a Questão do Belo como Tutela:

    • Constatação (em seu livro sobre o Belo) de que as línguas europeias empregam um substantivo, "o Belo", ao contrário do chinês.
    • Este termo "pré-dispõe" a pensamento.
    • A possibilidade aberta pela distinção do substantivo do adjetivo.
    • "O Belo" assim substantivado se impõe à pensamento e apela ao advento de um julgamento "sobre o Belo".
    • O "distanciamento" com a China é esta tutela exercida pelo Belo, mais do que a variedade das fórmulas.
    • O que conta mais é a qualidade do processo que funda o objeto (ou o sujeito) em seu ambiente.
    • O regime global deste processo é a polaridade.
  • As Diferenças Estruturais e a Comparação Cultural:

    • O "distanciamneto" que toca, a partir do "ser", no próprio conceito de identidade.
    • A língua chinesa é sem morfologia, sem declinações nem conjugações.
    • A Europa, ao contrário da China, separa morfologicamente o substantivo e o adjetivo.
    • A insistência de François Jullien desde seus inícios em se desaprender da afirmação de uma identidade cultural "específica e exclusiva".
    • Tal afirmação "conduziria a um uso rígido e monolítico da comparação".

Estadas na China e no Japão: A Confrontação com a Realidade Histórica e a Crítica Acadêmica

  • Roland Barthes, o Diretor de DEA e o Interrogatório da China:

    • Roland Barthes como outra figura marcante na formação de François Jullien, que dirigiu seu DEA.
    • A recusa de Barthes de interrogar a China de forma exótica, pressentindo que a fadeur (insipidez) poderia caracterizar a civilização chinesa.
    • A confirmação por François Jullien do que Roland Barthes apenas esboçou.
    • A ligação entre a démarche de Barthes (interrogando objetos da vida contemporânea, afastado da filosofia tradicional) e a de Jullien (partindo em busca de um lugar radicalmente outro, uma "heterotopia" como o diz Michel Foucault).
    • O longo período de residência de François Jullien na China, que é ignorado por alguns no mundo da sinologia.
  • Primeiro Contato e a Estada como Aprendiz Sinólogo (1974-1977):

    • Primeira viagem em 1974 e início da estada de dois anos como aprendiz sinólogo em Pequim e Xangai em 1975.
    • O contexto do término da Revolução cultural e o reino findando de Mao Zedong.
    • A não adesão positiva e a não posição de rejeição na ideologia dominante da época.
    • A recusa de se aliar aos maoístas ou de se fechar a toda compreensão desta China política.
    • O desejo de primeiro compreender o que via.
    • A escolha de se confrontar à realidade histórica da China, recusando a filière clássica de Harvard.
    • A consagração ao decriframento das causas e dos efeitos deste sistema de gestão da sociedade.
    • A aspiração a "Ver sem que nos digam o quê".
    • A citação sobre o essencial conhecido em Pequim: "o essencial é que lá se conheceu 'os quatro mortos'. A morte de Kang Sheng, que era o pior do Partido, o homem da polícia; depois a de Zhou Enlai, o homem 'bom', se o houve entre os grandes dirigentes chineses, aquele que permitiu em todo caso que as coisas recomeçassem no fim da Revolução cultural, pensando as chagas e tentando reparar o irreparável; depois a de Zhu De, o herói militar da Longa Marcha; e enfim a de Mao, quando chegamos a Xangai, em setembro de 76."
    • As experiências de campo e o questionamento sobre a sociedade:
      • Idas à campanha ou a fábricas para aprender junto às "massas laboriosas".
      • O testemunho de eventos que escapam à vigilância das autoridades (terremoto, condenados).
      • A citação sobre a emergência das perguntas: "E então lá, de repente, as coisas que não se podia ver se tornam ofuscantes. Quando se veem os condenados à morte que passam diante de vós com sua tabuleta no pescoço, e que os professores vos põem a mão diante dos olhos para que não os vejam... É lá – e não no conforto de uma biblioteca – que certas perguntas vos saltam literalmente à garganta: o que faz uma sociedade? E o que falar quer dizer? E como se podia haver tanta tensão sob tanto conformismo?"
  • Estudo de Lu Xun e Ensino de Literatura Francesa (1978-1979):

    • Estudo da obra de Lu Xun na universidade Fudan de Xangai, preparando uma tese de terceiro ciclo.
    • O retorno à China (1978) com este novo diploma para ensinar a literatura francesa contemporânea aos professores de francês na universidade de Pequim.
    • Um de seus mais belos momentos na China.
    • O contexto de Deng Xiaoping fazendo soprar o vento do renovo e da abertura.
    • O risco de falar de Proust ou de Barthes a docentes que só viam a literatura francesa através de Victor Hugo ou Alphonse Daudet.
    • "A última aula" como o único texto francês lido por todas as crianças chinesas na escola na época.
  • Passagem por Hong Kong, Dissidentes e Análise Política (1979):

    • Retorno às margens da China e primeiramente a Hong Kong.
    • Responsabilidade pela Antenne française de sinologie (recém-criada).
    • Redação de um Boletim consagrado à vida política pela análise dos jornais.
    • Aprendizagem a decifrar a China lendo esta imprensa mensal.
    • Frequência de velhos letrados no Instituto Xinya ("Nova Ásia"), que perpetuam a tradição e escaparam à ditadura comunista.
    • Primeiro contato com os dissidentes: os "nageurs" (nadadores) que passavam para Hong Kong.
    • Familiarização simultânea com a análise sem interdito da realidade política contemporânea e com os comentários de eruditos (últimos formados na China de antes de 1919).
  • Tese sobre a "Valeur Allusive" (Valor Alusivo) e a Língua de Madeira:

    • Sustentação da tese sobre o "valor alusivo" após o retorno à França por três anos.
    • O objetivo de cercar a relação dos Chinois ao texto, ao alusivo que impregna a concepção chinesa da escrita e da leitura.
    • A medição do "distanciamento" com o modo de expressão europeu, à distância das teorias europeias da literatura.
    • O enraizamento desta temática na experiência política vivida (esforço de decifrar os textos do Partido).
    • Aprendizagem a compreender as nuances da "langue de bois" (linguagem de madeira) oficial.
    • A leitura do que dizem e do que não dizem os textos, que evitam mais do que tudo a ruptura.
    • O processo de associar evoluções políticas (por vezes "cabeça-a-cauda") isolando, rareando, e modificando fórmulas ultrapassadas.
    • A afirmação de uma nova linha sem referência explícita à linha de ontem retira a tomada da contestação.
    • A recusa de toda oposição frontal impede o debate democrático.
  • Estada no Japão e a Visão "Seuil" (Limiar) e Contraste (1985-1987):

    • Partida para o Extremo-Oriente, desta vez para o Japão (inicialmente seis meses, prolongando-se por dois anos).
    • O Japão como bom lugar de observação da realidade chinesa por fazer "seuil" (limiar) e fazer contraste.
    • O empréstimo do Japão simultaneamente da China e da Europa.

Retorno a Paris, Posição Mediana na Sinologia e Engajamento Filosófico

  • Presidência da Associação Francesa dos Estudos Chineses (Fim dos Anos 1980):

    • Regresso a Paris e presidência da Association française des études chinoises.
    • Prova do impacto inovador de seu trabalho aos olhos de certos sinólogos.
    • A divisão dos sinólogos: historiens de la Chine moderne (Jean Chesnaux, Lucien Bianco, Marie-Claire Bergère, Marianne Bastid) e chercheurs em sinologie classique.
    • Críticas dos clássicos aos modernos por desconhecerem o chinês clássico.
    • A posição mediana de François Jullien, interessado tanto pelos textos dos letrados quanto pela política contemporânea, como razão do acolhimento contrastado dos sinólogos.
  • Direção na Universidade Paris-VII e a Crítica da Especialização:

    • Diretor da unidade "Asie orientale" da universidade Paris-VII-Denis-Diderot em 1990.
    • Críticas de sinólogos por não ser especializado em tal ou tal pane da cultura chinesa.
    • Sua resposta à crítica:
      • Citação: "uma verdadeira especialização não é somente míope, ela é insustentável; seu confinamento confortável é uma ilusão."
  • Engajamento Pedagógico e a Presidência do Collège International de Philosophie:

    • A inseparabilidade destas posições de seu cuidado pedagógico.
    • O prazer de ensinar, o contato com um público motivado e o incontestável desejo de seduzir.
    • O sucesso que o incita a multiplicar as iniciativas de popularização da pensamento filosófica.
    • Presidente do Collège international de philosophie em 1995 (por três anos).
    • Afirmação como um sucessor apreciado de Jacques Derrida.
    • Pontos em comum com Derrida:
      • A démarche de desconstrução de um patrimônio cultural muito assegurado.
      • A leitura crítica dobrada de uma reconstrução das categorias fundadoras da pensamento.
      • O desejo de relançar a filosofia estabelecendo-a numa relação nova com o não filosófico.
    • O exemplo do não filosófico:
      • Jacques Derrida consagra um livro ao cartão postal.
      • François Jullien explica a ausência do Nu na arte chinesa.
    • O contraste das fontes:
      • Jacques Derrida quis romper com uma certa tradição universitária centrada na única fonte grega, pondo a especificidade do maciço hebraico à luz.
      • François Jullien convida a confrontar as fontes gregas ao mundo da China.
    • Jacques Derrida e Jean-François Lyotard como aqueles que incitaram François Jullien a tomar a direção do Collège international de philosophie.
  • Continuidade no Engajamento Filosófico e a Criação de Revista:

    • Prolongamento do engajamento organizando um "curso metódico e popular" de filosofia (em colaboração com a Prefeitura de Paris e a Bibliothèque nationale de France).
    • Nascimento do livro "Do universal, do uniforme, do comum e do diálogo entre as culturas" neste contexto.
    • Prova da estimulação do trabalho teórico pela relação pedagógica.
    • Fundação da revista "Agenda da pensamento contemporânea" em 2005.
    • O objetivo: atravessar livros de saber e apresentar o renovamento da pensamento francesa contemporânea nestes diversos campos.
    • A proposta de "visitar os canteiros cujos intelectuais são eles mesmos os operários".
    • O desejo de ser resistente, polêmico, face ao que François Jullien chama "a demissão dos meios".


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